”Dou comigo, é certo, numa aparência de ordem, no meio das minhas queridas armas e bagagens. A minha toca dá-me os mimos do seu silêncio, da quase-nudez das suas paredes, da ordem viva dos utensílios, da profusão das telas brancas ou só começadas, nesse percurso que, às vezes, só vai desembocar num impossível: o de fixar uma aparência ou então mudá-la.
(…)
Muitas vezes marquei encontro comigo próprio no ponto zero. E lá me encontrei: a situação sem conforto, de que há que partir. Claro que isto vale para a pintura e para o resto.
Assim, amanhamos coragem para nos convencermos de que agarraremos um dia o que temos a impressão de ter perdido. É falso. O que perdemos está perdido, e aí ficamos. Do que foi perdido, desperdiçado, destruído, já não há nada a esperar. De acordo com a moral das famílias, foi aliás exactamente para isso que se destruíu, se desperdiçou, se perdeu. Para que não volte mais?
O traço que apagamos armazena-se nesse entreposto que é a memória. De lá irá sair, talvez um dia, se um acontecimento imprevisto, mas concreto, da ordem do pouco que o acaso traz consigo, o empurrar para a frente. Eu disse talvez: nada nos garante, nada nos segura contra o fracasso ou a perda. É um quadro nada tranquilo esta clara imagem que fazemos da arte, prática obscura.
Pisar o mesmo caminho. Em todo o caso, este intervalo, mesmo que acabe de repente ou sirva de escala para outras “desmarcações” é um dos hábitos do pintor. Mas não deve ser confundido com o artifício que está na origem de um certo estilo “artista”, de salão, quando os falsos repentirs simulam os achados: ser hábil na inabilidade, alegria de circo.
Júlio Pomar - Da cegueira dos pintores